Manaus, 14 de julho de 2020
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Estudo relaciona desmate na Amazônia a menores produtividades do milho no Brasil

Queimada em área desmatada da Floresta Amazônica na região de Porto Velho (RO). Foto: Ueslei Marcelino
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O desmatamento na Amazônia brasileira e no bioma vizinho, o Cerrado, pode estar prejudicando as produtividades regionais de milho, de acordo com um novo estudo divulgado nesta segunda-feira.

Aproximadamente um quinto da Amazônia brasileira foi derrubada nos últimos 50 anos, quando o país passou de importador de alimentos a potência agrícola global. Em termos de milho, o Brasil é hoje o segundo maior exportador do mundo, só atrás dos Estados Unidos.

Mas a devastação da floresta, que inclui mais de metade da vegetação natural do Cerrado, tornou a região mais quente –e este calor está associado a menores produtividades de milho, relataram cientistas no periódico científico Nature Sustainability.

“A paisagem está ficando muito mais quente do que deveria”, disse Stephanie Spera, coautora do estudo e cientista ambiental da Universidade de Richmond.

“Estamos mexendo tanto com o sistema que podemos acabar não conseguindo mais fazer agricultura, especificamente o milho.”

Os pesquisadores ligaram o desmatamento a uma redução de 5-10% das produtividades de milho na maior parte do Mato Grosso, o Estado brasileiro que mais produz grãos.

As plantações de soja mostraram-se menos sensíveis que o milho às mudanças climáticas.

Em Mato Grosso, também o maior produtor de soja do país, produtores geralmente plantam a oleaginosa na primeira e maior safra, para a colheita no verão, e depois semeiam o milho, na segunda safra, a partir de janeiro e fevereiro.

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Pelo calendário de cultivo, a soja tradicionalmente obtém melhores condições climáticas para se desenvolver, enquanto o milho é considerado uma cultura de maior risco, porque seu período de desenvolvimento avança para uma época em que chove menos no Estado.

Spera e seus colegas usaram simulações de computador para ver como várias projeções de desmatamento impactariam as condições climáticas locais e o rendimento das colheitas, e compararam estes casos com a maneira como as colheitas poderiam ter sido sem o corte de árvores.

O estudo apontou que, em 2016, as condições incluíram oito “noites quentes” a mais por ano, com temperaturas acima dos 24 graus Celsius, do que se a floresta tivesse permanecido intacta.

Estas temperaturas noturnas mais elevadas podem prejudicar o crescimento do milho.

Os pesquisadores também analisaram possíveis situações futuras, entre elas todo o Cerrado ou o sudeste da Amazônia desflorestado e convertido em terras de cultivo.

Nestes casos, previu-se que a produção de milho cairia até 20% em alguma áreas do Mato Grosso.

O mesmo desmatamento que prejudica as lavouras também pode danificar a floresta remanescente. A perda de cobertura vegetal pode diminuir a quantidade de umidade disponível para o ciclo de chuvas.

Alguns cientistas estimam que, se entre 20 e 25% do total da floresta tropical original é destruída, a Amazônia poderia entrar em uma espiral de morte, ficando sem chuvas e umidade suficientes, transformando-se em um cerrado.

“O desmatamento interfere nas chuvas e reduz a produtividade agropecuária”, disse Raoni Rajão, professor de gestão ambiental da Universidade Federal de Minas Gerais.

O desmatamento na floresta amazônica brasileira acelerou para uma máxima de 11 anos em 2019, com mais de 10 mil quilômetros quadrados (2,5 milhões de acres) em 2019.

O desflorestamento aumentou mais 34% nos primeiros cinco meses do ano, em comparação com o mesmo período do ano anterior, mostram dados preliminares do governo.

Pesquisadores e especialistas acusam o presidente Jair Bolsonaro, que assumiu o cargo em 2019, de incentivar a derrubada de florestas revertendo as proteções ambientais.

Bolsonaro pediu mais agricultura e mineração em áreas protegidas da floresta tropical, argumentando que as atividades comerciais ajudarão a tirar a região amazônica do Brasil da pobreza e que a maior parte da floresta tropical permanece intacta.

“O futuro das mudanças climáticas já chegou, e a situação deve ficar pior”, acrescentou o professor da UFMG.

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